Via Sacra da Rocinha: da recusa geral ao total sucesso

2014 01Qual morador da Rocinha ainda não ficou na plateia para assistir uma apresentação da Via Sacra da Rocinha? O espetáculo, que acontece desde 1992, conta parte da história de Jesus de Nazaré e é encenado na Semana Santa, tendo como plano de fundo a favela da Rocinha. Uma caminhada de 2,7 Km iniciada no Largo do Boiadeiro e finalizada com a ressurreição de Cristo na Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem. Neste ano, a data para a apresentação é no dia 3 de abril, às 20h. Aurélio Mesquita, 48 anos ou 50 que é o que consta na identidade, é o diretor e o idealizador desse projeto que começou por causa de sua persistência e hoje leva multidões para acompanhar cada cena nas ruas da Rocinha.

O interesse de Aurélio pelo teatro surgiu aos três anos quando sua mãe, que veio a falecer dois anos depois, o levou para assistir uma peça em que sua prima fazia parte do elenco, na cidade de Cachoeira-CE. Aurélio ainda se lembra da peça, que apresentava a história de um casal que fazia um chá milagroso. Com 16 anos, Aurélio tirou seus documentos, aumentando em dois anos sua idade para poder fazer sua carteira de trabalho e por receio da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor – Funabem. Nessa idade conseguiu vir para o Rio de Janeiro com o sonho de fazer teatro. Por intermédio de uma empregada doméstica conheceu um professor que dava aulas em Madureira e que o ensinou as técnicas da 5ª arte. Com uma semana de aula já estava fazendo a montagem de uma peça que acontecia dentro de um ônibus, num formato chamado teatro do invisível. Adquiriu mais conhecimento, se formando em Artes Cênicas pela UniRio e pode se firmar na carreira, participando de montagens e apresentando-se com o grupo do Sesc da Tijuca.

Via Sacra da Rocinha em 1992 (Foto: Fábio Costa)

Via Sacra da Rocinha em 1992 (Foto: Fábio Costa)

Aurélio morava em Senador Camará quando conheceu o vice-presidente da Associação de Moradores Amigos do Bairro Barcelos (Amabb) da Rocinha em uma reunião de associações na Uerj. Pouco depois se instalou e criou afeição pela favela. Nessa época, Aurélio já fazia a Via Sacra com o grupo do Sesc da Tijuca, num formato parecido com a que é realizada aqui, num conjunto de casas construídas num morro e que faz parte do Sesc.

Durante a páscoa quando não fazia trabalhos teatrais, Aurélio viajava, em uma dessas viagens surgiu a ideia de montar a Via Sacra na Rocinha. Em Lumiar, 5º distrito de Nova Friburgo, lendo o livro de José Maria Rodrigues, “O Homem de Nazaré”, que ganhara do autor, e observando a queda d’água do Poço Feio que Aurélio teve o “estalo”. Na imaginação dele, as pedras eram os barracos e a água caindo fazia o som da vala, comum em diferentes becos da Rocinha. Aurélio voltou para a favela com a fixação de realizar esse projeto, na época, escrito a lápis, e acreditando que todos o apoiariam.  Entretanto, a maior dificuldade nesse início foi conseguir apoio. A igreja católica foi contra e muitos moradores chamaram Aurélio de louco. O que despertava a revolta de todos era associar o nome de Jesus à favela.

– A igreja quis excomungar o espetáculo. Não queria ligar a história de Jesus com a pobreza. Hoje, a igreja nos vê de forma diferente, eles não concordam com o que a gente faz, mas não são tão ásperos. Antes era como se fossemos inimigos, diz Aurélio.

Aurélio mostrou pela primeira vez o projeto para um representante da Secretaria Municipal de Cultura. A resposta dele foi: virar o rosto e chamar um guarda para tirá-lo da sala. Porém, cada resposta negativa o incentivava a dar continuidade ao projeto.

Pouco apoio e muitas dificuldades marcaram o início da história da Via Sacra (Foto: Fábio Costa)

Pouco apoio e muitas dificuldades marcaram o início da história da Via Sacra (Foto: Fábio Costa)

Apesar dos “nãos” também houve quem o ajudasse. Uma amiga chamada Ana Maria datilografou o projeto e o amigo fotógrafo Fabio Costa ajudou a montar a equipe. O primeiro Jesus se chamava Valter Candido e a primeira Maria, Alba Campos, ambos da Rocinha. Nas igrejas ninguém se interessou em participar, um exemplo dessa recusa foi o que aconteceu com a pessoa que fez o personagem da Maria que acabou discutindo com a família por fazer parte do grupo. Os participantes se mesclavam entre pessoas da Rocinha e de fora. Os integrantes do primeiro elenco, que contou com 45 pessoas, em sua maioria pessoas comuns que moravam na Rocinha e que não tinham ligação direta com o teatro, mas carregavam o sonho de ser ator ou atriz. Aurélio calcula que cerca de 300 pessoas já participaram do elenco da Via Sacra da Rocinha.

Assim como Aurélio, Zé Luís Summer, 48, também está no projeto desde a primeira apresentação. Em 1992, ele fez o papel de Herodes. Foram três anos atuando e 18 como figurinista e maquiador do espetáculo.

– Na primeira apresentação, em 1992, foi um desafio para mim, pois eu e o Valter Candido tínhamos brigado na infância. Então tive que superar essa rixa com a ajuda de Aurélio. O meu sentimento ao fazer a Via Sacra há tanto tempo é de resistência. Eu acho que eu e Aurélio vamos estar de bengala fazendo esse espetáculo.

Até 2012 a Via Sacra não tinha local fixo para ensaiar. Já houve ensaios na praia, quadra de futebol, lajes em construção, rampa de skate, embaixo do Hotel Nacional, Ciep Ayrton Senna, quadra da Acadêmicos da Rocinha, academia R1, etc. Até no pequeno apartamento de Aurélio já ensaiaram. Ele disse que cabiam 20 pessoas na sala, alguns nos corredores e outros do lado de fora fazendo leitura.

– Quantos ensaios não tivemos que interromper assim que iniciava porque estava passando tiros “traçantes” acima de nossas cabeças e naquele momento estávamos numa laje totalmente desprotegidos? Quantas vezes durante um ensaio encontramos um grupo de bandidos que trocaram tiro um com outro e tivemos que nos esconder dentro da vala?

Hoje os ensaios acontecem na Biblioteca Parque da Rocinha e leva multidões para assisti-los na Semana Santa. Aurélio diz que o primeiro público contou com uma quantidade modesta formada principalmente pelos familiares dos integrantes do grupo.

Em 2015…

Atualmente a Via Sacra arrasta multidões pela Estrada da Gávea até a Fundação (Foto: Flávio Carvalho)

Atualmente a Via Sacra arrasta multidões pela Estrada da Gávea até a Fundação (Foto: Flávio Carvalho)

A cada ano a Via Sacra da Rocinha se reinventa e aborda algum tema polemico. Aurélio revelou ao FavelaDaRocinha.com algumas das críticas que serão apresentadas durante a encenação. Então se você quer manter a surpresa, melhor parar de ler esse texto, mas se você é como esse repórter que vos escreve: curioso, vamos em frente.

Esse ano terá a volta de Lucas Valentim no papel de Jesus e também como diretor de elenco. O tema principal que será abordado é a brasilidade. Será exclamado um trecho de uma música de Raul Seixas, que Aurélio não revelou o título. O início do espetáculo é uma homenagem aos tão comentados “rolezinhos”, e a cena foi inspirada numa foto premiada, tirada em 1983, de Luiz Morier, na qual mostra um policial com um grupo de negros amarrados pelo pescoço.

Outra novidade para esse ano é que não haverá o papel da Maria Madalena, e isso é uma forma de homenagear as mulheres. A supressão do papel se explica por uma pesquisa realizada pela arqueóloga Fernanda Camargo-Moro que diz que Madalena não era prostituta e sim uma mulher da alta classe que financiava o grupo de Jesus. Nos primeiros escritos sagrados Madalena não era posta em evidência, só foi inserida na história depois de uma reunião, que aconteceu no século VI, o Papa Gregório Magno, em sua tentativa de lutar contra o pecado e buscar novas conversões, juntou todos os casos negativos ligados às mulheres que constavam nos Evangelhos e os colocou como se tivessem ocorrido com Maria Madalena. O fato foi considerado como forma de denegrir a figura da mulher.

De acordo com Aurélio tocar nesses assuntos polêmicos é o germe que faz da Via Sacra da Rocinha o que ela é. Ele reitera que é obvio que houve crescimento na formação do elenco, no entanto a favela não mudou muito e continua com seus problemas de saneamento, por exemplo.

­– Se a Via Sacra não tiver essa atmosfera de denúncia, ela não tem sentido de acontecer. Trago as pessoas para cá, para verem o lixo jogado na rua e a vala aberta. Temos uma cena que é ao lado da vala. Eu quero que você pegue uma doença seu F*D*P*. É para perceberem o que o morador passa todo dia aqui.  Para ver se as pessoas se tocam e enxergam que aquilo ali é um serviço do poder público que já deveria ter sido resolvido há muito tempo. Queriam mudar o trajeto para não passar na lixeira da Cidade Nova, por exemplo. Então vamos tirar a Via Sacra da Rocinha, vamos fazer no Leblon, retrucou.

Aurélio acha que se a Via Sacra não tivesse essa resistência em permanecer gratuita, não traria o público que traz hoje. Já cogitaram a venda de abadá para assistir à apresentação. Ele diz que as pessoas que lotam os bailes funks são as mesmas pessoas que lotam a Via Sacra e nunca aconteceram confusões nem brigas. Essa atmosfera da favela é o que atrai Aurélio a fazer a Paixão de Cristo na Rocinha

­­− Eu acho que é um pingo colorido que colocamos nesse mundo preto e branco da favela. Fazer parte desse pingo que se diferencia de todos os outros é fantástico. As pessoas passam pelos lugares da Rocinha e não observam. Na Via Sacra da Rocinha elas observam e percebem o quanto a favela é bonita e nunca repararam.

Quem está fazendo parte desse pingo pela primeira vez é Júlio Villela, gaúcho de Porto Alegre, 27 anos, e que vem de Brás de Pina para ensaiar. O jovem fará o papel de Judas, o papel que desejava interpretar. Ele ouviu falar pela primeira vez sobre a Via Sacra através de amigos de ensaio.

– Quando comecei não sabia no que esse trabalho se transformaria, então as minhas expectativas ainda eram indefinidas, mas eu acreditava e vinha de longe. De uns tempos para cá comecei a enxergar o que era este trabalho, e isso me deu muito animo.

A maior dificuldade nesses mais de 20 anos foi financeira. Com o financiamento é possível resolver todos os problemas afirma Aurélio. Outro empecilho são empresas que trabalham no meio artístico que não aceitam fazer espetáculos em favela, por conta de preconceito, comenta.

– Durante a apresentação eu sinto como se eu tivesse sem ossos. Em alguma hora acho que vou desmontar. Não fazemos o espetáculo para as pessoas gostarem ou não gostarem, nós fazemos porque nós gostamos, diz.

Curiosidades sobre a Via Sacra da Rocinha:

  • Seis atores já fizeram o papel de Jesus: Valter Cândido, Fernando, Aurélio Mesquita, Júlio Oliveira, Lucas Valentim e André Martins.
  • Quem ficou mais tempo fazendo o papel de Jesus foi Lucas Valentim, esse ano é a décima primeira vez.
  • 2008 foi o ano com o elenco mais populoso, mais de 70 pessoas.
  • Em 2009 os ensaios começaram 15 dias antes da apresentação.
  • Quem está desde o início: Aurélio Mesquita e Zé Luiz Summer.
  • Em 2004 a apresentação foi adiada para 15 dias depois, devido a um tiroteio.
  • A comissão de frente da Acadêmicos da Rocinha fez o papel dos soldados na primeira apresentação.
  • Nos 20 anos de Via Sacra da Rocinha o diretor Aurélio Mesquita nunca faltou a um ensaio.
  • Em 1994 foi a única vez que foi alugado um figurino realista para realizar a apresentação.

Flávio Carvalho

Fotógrafo desde 2009, músico e jornalista formado pela PUC-Rio. Mora na Rocinha desde que nasceu.

Flávio Carvalho

Flávio Carvalho

Fotógrafo desde 2009, músico e jornalista formado pela PUC-Rio. Mora na Rocinha desde que nasceu.

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