‘Para uma parcela, já deu. É hora de ir embora’, diz morador da Rocinha

Rocinha e Morro Dois Irmãos (foto: Flávio Carvalho)

Nunca pensei que em 19 anos iria presenciar tão nitidamente o compartilhamento do medo. O medo mútuo, que aprisiona, enclausura e traz pânico. O medo perseguidor, que vai atrás, que te impossibilita de dar um passo, comprar o pão, estender a roupa. O medo de a minha mãe descer para o trabalho e ser atingida. O medo da criança brincar no beco e ser atingida. O medo da grávida tentar chegar ao hospital e ser atingida.

Esse medo, ou melhor, essa bala, nos atingiu há quatro meses. Quatro difíceis meses de tensão que fazem uma única dúvida pairar sobre o ar: até quando? Até quando nos seremos proibidos de andar no local onde nascemos, amadurecemos e criamos nossos filhos? Até quando a instabilidade será o grande mote de uma favela que está no coração de uma cidade apaixonadamente chamada de “maravilhosa”? Até quando?

Enquanto essa pergunta é feita, tiros ultrapassam as paredes de casas. Alguém se esquivou e, por “sorte”, não se feriu ou virou mais um número nesse apanhado de dados que constatam o quanto estamos vulneráveis à violência e ao perigo. Para uma parcela, já deu. É hora de ir embora. É hora de procurar uma outra Passárgada para ser feliz. Sem que se ouçam tiros, e onde a paz, enfim, seja possível.

 

Eduardo Carvalho

Morador da Rocinha há 16 anos, um jovem que tenta absorver todas as coisas dessa favela-mundo tão viva e movimentada para transmitir em reportagens e crônicas. Já fez parte da formação do Rotary Club Rio e participou em 2013 do Onda Cidadã, do Itaú Cultural.

Eduardo Carvalho

Eduardo Carvalho

Morador da Rocinha há 16 anos, um jovem que tenta absorver todas as coisas dessa favela-mundo tão viva e movimentada para transmitir em reportagens e crônicas. Já fez parte da formação do Rotary Club Rio e participou em 2013 do Onda Cidadã, do Itaú Cultural.

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