O favelado e o Enem

photoNeste fim de semana, 08/11 e 09/11, cerca de oito milhões e 700 mil pessoas em todo o Brasil farão a prova do Enem – Exame do ensino médio. A prova foi criada em 1998 com o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da educação básica e sua forma multidisciplinar fez com que substituísse o vestibular na maioria das universidades. Apesar de não ter o formato ideal, o Enem se tornou uma ferramenta revolucionária por trazer aos estudantes de escolas públicas, em especial aos moradores de favelas, esperança de cursar uma faculdade.

Eu conclui meu ensino médio com 18 anos, sempre fui estudioso e frequentador assíduo da biblioteca pública Vinícius de Moraes, no Leblon – pois até então não havia biblioteca na Rocinha. Porém, onde estudei, no CIEP Ayrton Senna da Silva, não havia professores de diversas matérias, como física e química, e em nenhum momento eu tive estímulo da escola ou da família para, ao menos tentar, fazer o vestibular.

Eu comecei a trabalhar com 16 anos e não conhecia ninguém que havia cursado uma faculdade, pois esta não era uma realidade palpável e sequer habitou meus sonhos durante muito tempo. Entretanto, com o sucesso do Enem eu vi alguns amigos ingressarem na faculdade e um deles me estimulou a fazer a prova e, mesmo relutante, por já ter 26 anos, eu a fiz. Meu desempenho mediano, sem preparo prévio, me surpreendeu e acendeu em mim a chama da esperança.

No ano seguinte, eu me preparei melhor e fui aprovado para o curso de jornalismo na Puc, na gávea, lugar em que fazia aulas de educação física quando estudava no Colégio Christiano Hamann durante o primário. Lembro-me que a sensação de entrar na Puc nos meus primeiros dias de universitário foi parecida com a que sentia quando criança – um peixe fora d’agua. Aos poucos percebi que não somos tão diferentes intelectualmente dos “playboys” e apesar da diferença de idade eu me formei sem maiores problemas.

Em 2010, a convite de um amigo eu fui dar aulas de redação no Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha – PVCR. O trabalho voluntário, pouco comum no Brasil, me trouxe inúmeras experiências inesquecíveis, daquelas que o dinheiro não compra. O brilho no olhar de um aluno ao conseguir a bolsa para a faculdade me dá a sensação  de estar no caminho certo. O acesso à universidade não se traduz apenas em expectativa de melhoria socioeconômica, traz também satisfação pessoal e aos poucos muda o perfil do trabalhador que mora em favela.

Porém, apesar do número crescente de favelados universitários, não se trata de meritocracia, pois não há justiça quando as oportunidades são desiguais e muitos jovens pobres têm que trabalhar e estudar. A escola pública continua ruim e enquanto esse quadro não for mudado, o Brasil continuará a ser uma nação com imensas desigualdades sociais.

A minha história se confunde com a de diversos moradores de favelas. Assim como outros, eu fui o primeiro universitário da família e, atualmente, estou cursando pós-graduação em Gestão da Comunicação Estratégica na FACHA.

Se você quer conhecer melhor o Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha clique nos links:

https://www.youtube.com/watch?v=xneomZeKpDw

http://oglobo.globo.com/vestibular/abrindo-as-portas-da-universidade-para-favela-3242410

http://extra.globo.com/noticias/educacao/vida-de-calouro/projeto-social-na-rocinha-ajuda-estudantes-ingressarem-no-mundo-universitario-7335155.html

Marcos Barros

Cria da Rocinha, jornalista, coordenador de comunicação e professor voluntário do Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha. Atuante no FavelaDaRocinha.com desde 2010.

Marcos Barros

Marcos Barros

Cria da Rocinha, jornalista, coordenador de comunicação e professor voluntário do Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha. Atuante no FavelaDaRocinha.com desde 2010.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *