O drama de quem vive, é vizinho ou fugiu da guerra na Rocinha

(foto: O Globo)

Desde o ultimato do traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, em setembro, para que Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, entregasse o comando da Rocinha, a comunidade vive uma guerra como há muitos anos não se via. De lá para cá, 34 pessoas morreram no confronto pelo controle do tráfico na região. Nesses quatro meses, muitas pessoas deixaram suas casas na favela, mas a grande maioria continua enfrentando a onda de violência de perto, seja na comunidade ou na vizinhança, na esperança de um final “feliz”. O GLOBO ouviu relatos de quem ainda vive, de quem fugiu e de quem é vizinha à guerra da Rocinha.

QUEM VIVE NO MEIO DO TIROTEIO

Relato de moradora da parte baixa da favela

“Desde que os confrontos começaram, a Rocinha virou uma comunidade partida. Na parte baixa, perto de áreas comerciais como a Via Ápia e o Largo do Boiadeiro, quase sempre a vida parece seguir normalmente, até nos dias de confronto. A exceção é a área conhecida como Valão. Já na parte alta, a rotina é de guerra e constantes tiroteios. Foi assim nos conflitos desta quinta-feira. Os disparos não paravam, estavam perto. Mas a maioria do comércio próximo à Autoestrada Lagoa-Barra continuava aberta, apesar da circulação de policiais com suas armas apontadas. Eu mesma consegui sair para trabalhar. Tinha ouvido muitos e muitos tiros. Do ponto de ônibus próximo à entrada do metrô, ainda escutava os estampidos. Mas segui meu caminho.

No alto da favela, no entanto, em regiões como a Rua 1 ou a Rua 2, não dava para se manter distante assim. Alguns dos meus parentes que vivem lá ficaram o dia inteiro presos em casa, se escondendo dos tiros. Só puseram o pé na rua hoje. E quando saíram pelos becos, depararam-se com corpos e cenas como a de uma parede na Rua 2 que quase desabou. Sobrou pouco dela, atingida por dezenas de balas de fuzil.

Apesar desses contrastes, em toda a comunidade as pessoas concordam que o tiroteio desta quinta-feira foi pior até do que o do dia da guerra (em 17 de setembro do ano passado). Naquele época, os tiros começaram cedo, mas já tinham parado perto das 14h. Ontem, já podiam ser ouvidos por volta das 8h30m. E continuavam depois das 20h.

Fui para casa por volta das 22h. Embora eu viva na parte baixa, passei o dia me comunicando com outros moradores para saber como estava a situação na comunidade. Quando cheguei, a minha rua, que costuma estar sempre movimentada, estava deserta, sem uma alma sequer. E escura.

Aliás, esse é um dos exemplos de como o cotidiano na Rocinha foi completamente alterado, tanto no alto quanto na parte baixa. Na minha rua, as luzes dos postes funcionam. Mas ficam acesas só até certa hora, por volta das 20h30m. É um dos reflexos da troca de comando das facções criminosas na comunidade. Só uma delas.

Até esta semana, estávamos tentando voltar à vida normal. Mas é difícil demais”.

Desabafo de morador da Rocinha numa rede social

“Ainda estou em choque, mas preciso descrever o horror que vivi hoje. Sem dúvidas um dia para nunca mais esquecer. Por volta das 10h acordei com uma troca de tiros numa região pouco abaixo da minha casa. Com o tempo, o confronto foi piorando, muitas bombas, prédios sendo atingidos e nós em casa esperando o fim daquele que seria mais um dia difícil para nós na favela. Errei. Errei porque a coisa ganhou uma dimensão de guerra. Em certo momento, os tiros pareciam vir de todos os lugares, do chão da cozinha eu ouvia os bandidos desafiando a polícia e as casas sendo arrombadas, janelas se quebrando.

Por volta das 13h30m, estávamos tentando almoçar quando quatro tiros estilhaçaram nossa janela e atingiram a parede. Instintivamente nos arrastamos da sala para a cozinha em desespero. A casa que nos abrigou e nos confortou durante dois anos estava destruída, cheirando a pólvora, guardando nosso desespero. Tudo que vivemos depois disso é difícil relatar. Parecia que o mundo estava acabando, que lugar é esse? Por que nossa vida vale tão pouco? Que direito tem um morador de favela?

Depois do caos, ouvia do beco os pedidos de ajuda, esperei, desci. A cena era chocante, um mar de cápsulas, carcaça de bombas, corpos, restos de corpos, casas pegando fogo. Foi difícil acreditar, mas a adrenalina tomou conta do meu corpo e comecei a ajudar tentando conter os incêndios. Umas 30 pessoas, que depois de mais cinco horas de guerra estavam ali, juntando forças para salvar o que restava dos nossos.

Eu nunca vesti uma farda, nunca toquei em uma arma, mas posso dizer que já estive numa guerra e sobrevivi. Meu corpo está inteiro, mas aqueles tiros não estilhaçaram só minha janela, nunca mais serei o mesmo. Vi e vivi o pior da sociedade, o pior do ser humano.

Precisamos intervir, irmãos, precisamos acabar com essa matança, com essa guerra contra nós, todos nós. Esqueçam eleição, esqueçam candidatos, lembrem-se do som dos tiros, dos desesperos, do mar de sangue, dos corpos. Amanhã o silenciado por ser você, para sempre. Hoje eu nasci de novo, e decidi: quero de volta a tutela da minha favela”.

O IMPACTO DA GUERRA NA VIZINHANÇA

Moradora de comunidade vizinha à Rocinha

“Quando a guerra de quadrilhas começou, o local onde moro foi muito afetado por ser muito próximo à Rocinha, com muitos bandidos vindos de outras comunidades para ajudar nas invasões. Ora era grupo do Nem, ora do Rogério 157, o que ocasionou tiroteios próximos, coisa que não acontecia. Muitos bandidos armados têm circulado por aqui. Por conta disso, passou a ter incursão policial diária.

Os tiroteios são frequentes e se intensificaram muito no último mês. Tropas especiais da PM têm feito incursões semanalmente na Rocinha, o que vem seguido de tiroteios muito fortes.

Lugares dentro e no entorno da comunidade, que antes eram “seguros”, passaram a ser perigosos, porque tem tiroteio em todo lugar. O medo de uma bala perdida é grande. Ontem mesmo, quinta-feira, durante um momento de rajadas, eu ouvi um barulho próximo, que me pareceu bala perdida.

Na última segunda, houve uma manifestação no fim da tarde. Segundo os comentários, foi organizado pelo tráfico, que obrigou os mototaxistas a comparecessem. Quem não fosse deveria entregar o colete, que é a licença para trabalhar no transporte. E todos sabem que essa operação de ontem foi retaliação a essa manifestação.

Minha filha não tinha medo de nada. Hoje vive amedrontada. Não fica sozinha em nenhum cômodo da casa. Tenho que tomar banho com a porta aberta por causa do medo dela.

Houve também a desvalorização do entorno. Vários imóveis estão vazios. Antigamente, as pessoas disputavam os quitinetes e as casas disponíveis. Agora sobram opções e lugares vazios, há mais de seis meses.

Na minha opinião, ao invés de resolveram a situação com políticas efetivas de segurança pública, colocaram nas mãos de uma polícia truculenta, corrupta e vítima também de um problema que o governo corrupto e omisso não resolveu.

Faltam políticas públicas lá dentro, não tem fiscalização, a construção é desordenada, faltam oportunidades e escolas boas, educação e saúde. Até quando o PAC começou, a primeira fase – não saiu da primeira -, teve uma melhora grande na Rocinha. As pessoas ficaram esperançosas. O clima melhorou. Com a ocupação da UPP, na época, as pessoas comemoravam. Só que tudo foi por água abaixo. A UPP foi por água abaixo, as Clínicas da Família, que eram uma excelente ideia, estão indo por água abaixo, daqui a pouco estão fechando. Teve a UPA, que também está indo por água abaixo. Os médicos estão saindo, não querem ficar. Não tem escola para todo mundo. Têm muitos pais com dificuldades de matricular os filhos nas escolas.

E aí o que que aconteceu? Tudo isso, ao invés de evoluir, regrediu. E a bandidagem voltou, voltou para a Rocinha. O que estava tudo muito escondidinho voltou com toda a força. E colocar a polícia para matar bandido não resolve. Tem que acabar com a fábrica. Tem que acabar com essa falta de oportunidade que os jovens têm, que todo mundo sabe, que bota eles na mão do tráfico.

A polícia é quem vai resolver isso? Nunca. Matam um bocado hoje, prendem e já têm um monte para entrar. Isso a gente vê aqui também. Meninos que tentam sair, mas acabam voltando para o tráfico. Alguns não têm nem passagem pela polícia, poderiam lutar por alguma coisa. Mas não têm emprego, não têm oportunidades, não têm escolaridade, não têm visão de nada. Então acabam caindo de paraquedas, de cabeça no tráfico. E não é a polícia que vai resolver”.

QUEM FOI EMBORA DA FAVELA

Relato de moradora que deixou a Rocinha após início da guerra

“Morei na Rocinha por 35 anos. Eu ainda tenho família lá, minha mãe e meu pai, muitos amigos. Mas eu te confesso, eu nunca vi a Rocinha como ela está hoje. Ruas, becos destruídos, casas destruídas por esse bang-bang, essa guerra. Eu perdi amigos que infelizmente foram vítimas de bala perdida, tenho uma amiga que desde o início dessa guerra e está internada no Miguel Couto, perdeu um pé e quase perdeu a vida. Uma pessoa que não tinha nada com essa história, mas que ficou no meio desse tiroteio.

E hoje quando eu vou visitar a minha família, eu te confesso: eu tenho medo hoje de andar lá. Uma coisa que eu nunca tive em 35 anos. Porqua quando você menos espera acontece um tiroteio, você não sabe de onde vem e nem que horas vai acabar. Saí da Rocinha já tem três meses, principalmente por causa da guerra. A dona do apartamento pediu a casa porque ia alugar para uma pessoa mais próxima, então eu resolvi unir o útil ao agradável. Hoje eu durmo em paz. Quantas vezes eu acordei com meus filhos na rua, meu marido na rua. Eles precisando ligar para saber se poderiam voltar para casa para poder dormir.

Todo o momento de lazer é dentro de casa. Eu tenho um filho de 14 anos que não sabe o que é brincar do lado de fora, na porta, porque eu nunca deixei pela guerra. Eu sempre tive medo de bala perdida e dessas situações. Eu tenho muitos amigos meus que deixaram a Rocinha pois os filhos estavam com síndrome do pânico, tremiam quando ouviam barulho de fogos e tiros, alguns não queriam mais comer. Infelizmente alguns tiveram que deixar suas casas próprias para procurar outro lugar. O povo da Rocinha agora virou refém. Tem família da Rocinha há dias sem luz e sem água. A Light tem lugar que não pode entrar para consertar.

É triste ver a situação da Rocinha hoje, é muito triste.

Alguns comerciantes da Rocinha estão falindo, pois as pessoas não estão indo para a rua, Muitos não vão mais fazer pesquisas em mercados dentro da comunidade, e hoje em dia não tem mais isso. Tenho muitos amigos que são comerciantes e alguns estão fechando as portas. Eu fui comerciante quando morava lá, e quando começou aquilo eu fechei a minha loja porque sabia que não teria como continuar. Trabalhava com comida, tinha que fazer entrega, e não tinha como continuar. Dentro dessa guerra não teve negócio.

Infelizmente essa guerra está afetando tanto os moradores como os comerciantes. Mas a gente tem pedido a Deus para que isso pare, pois já são mais de quatro meses que a situação só piora, e muitos inocentes estão perdendo suas vidas numa guerra que eles não escolheram. As pessoas hoje não dormem nem mais nas camas, e sim no chão, com medo de serem atingidas”.

Matéria O Globo clique aqui

FavelaDaRocinha

Site de comunicação comunitária desenvolvido por estudantes de comunicação da própria comunidade da Rocinha.

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