No Rio, favelas com UPPs vivem dias de desilusão

O teleférico do Alemão, que custou R$ 210 milhões, está parado há mais de um ano – foto: Flávio Carvalho

O que se vendeu foi esperança. Nos discursos das autoridades, as favelas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) teriam, além de segurança, acesso a serviços almejados há tempos, além de projetos sociais, incentivos a negócios… Por um período, quem começou a ver os benefícios ficou com a impressão de que as comunidades, enfim, entravam numa era de mudanças. No entanto, hoje, toda aquela expectativa se transformou em desilusão. Com o recrudescimento da violência e na esteira da crise econômica, a promessa de mais qualidade de vida para os cerca de 700 mil moradores das 38 regiões com UPPs não foi cumprida.

O Complexo do Alemão, por exemplo, voltou a conviver com níveis alarmantes de criminalidade e problemas de infraestrutura. Seu teleférico de R$ 210 milhões, parado há mais de um ano, é o maior símbolo do abandono de um Rio que não aparece nos cartões-postais.

Um a um, órgãos da prefeitura, como o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), desceram o morro. Empresas, como casas lotéricas e agências bancárias, também. A lista de equipamentos públicos fechados no Alemão inclui uma biblioteca estadual que nunca chegou a ser inaugurada oficialmente.

Além disso, moradores se ressentem da redução da oferta de cursos em três unidades da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e dos que eram promovidos pela Firjan dentro do conjunto de favelas — segundo a federação das indústrias, alguns passaram a ser oferecidos em unidades do Sesi/Senai localizadas em outros pontos da cidade, devido a uma elevação dos custos de manutenção dos espaços nas comunidades.

CLÍNICA DA FAMÍLIA NA LINHA DE TIRO

Obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ficaram incompletas, com ruas e tudo mais por terminar. O passado, este sim, se revela concreto: voltaram as incursões policiais, os tiroteios e o domínio do tráfico. Na Clínica da Família Palmeiras, que funcionava numa das estações do teleférico, os relatos são de que PMs a usaram para se proteger e para atacar bandidos. A Secretaria municipal de Saúde fechou a unidade, “em caráter temporário”, em dezembro do ano passado. Como os riscos não desapareceram, os atendimentos foram definitivamente suspensos, e os pacientes, transferidos. O Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Theóphilo de Souza Pinto resistiu, mas ainda tenta se recuperar do trauma de uma decisão no mínimo controversa.

— Em vez de uma escola técnica, botaram uma base de UPP no terreno do colégio, que virou alvo de disparos. Conseguimos tirar a UPP de lá. Mas as perfurações de cerca de 200 tiros continuam na fachada. O número de alunos segue reduzido. Mês que vem, por nossa conta, vamos tentar revitalizar a escola. Queremos pintá-la e promover uma batalha de grafite — conta Marquinhos Pepé, presidente da Associação de Moradores da Nova Brasília, acrescentando: — É muito triste ver o sonho de dar qualidade de vida a nossos filhos ir por água abaixo. Os serviços mais básicos têm sido mantidos a duras penas. A Comlurb faz o que pode, mas remendamos contêineres com arames para os garis trabalharem. Há valas abertas nas ruas. E essa é a maior violência na favela: o descaso com o saneamento.

Na suntuosa estação de Bonsucesso do teleférico, placas nas paredes lembram que algumas autoridades passaram por ali, como a ex-presidente Dilma Rousseff e o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim. Em um corredor interditado, ficou para trás uma exposição de fotografia cujo título dá o tom de como a estrutura foi anunciada: “Da demolição do cortiço cabeça de porco ao Teleférico do Alemão”.

— Nem água tem mais no prédio. Nunca mais se fez manutenção de nada — diz Marcos Pires, um comerciante que comprou um quiosque na estação e que, com o teleférico fechado, amarga uma queda de 90% no faturamento que registrava em 2015.

ROUBO DE ENERGIA DISPARA

No Morro da Providência, na região do Centro, um outro teleférico, que custou R$ 75 milhões, também simboliza os dias difíceis que o Rio enfrenta.

— Acho que, mesmo que volte a operar, servirá a poucos moradores. Não há mobilidade dentro da favela. As pessoas não têm como chegar à estação. Na Colômbia, teleféricos parecidos funcionam porque há escadas rolantes nos morros — diz o fotógrafo Maurício Hora, presidente da associação de moradores local.

Nesse ambiente de incertezas, um detalhe pode ser um paradigma do momento atual. Quando uma UPP era inaugurada, logo apareciam técnicos de energia elétrica e TV por assinatura. Era o mercado formal atrás de um enorme potencial de consumidores. Após o auge do processo de pacificação e a volta do status de território conflagrado, a dificuldade da Light para entrar nas comunidades faz com que os índices de furto de energia disparem. No Complexo do Alemão, subiu de 28% para 69% de todo o fornecimento. Compasso seguido por Cidade de Deus (de 31% para 59%), Borel (16% para 63%), Mangueira (28% para 69%), São Carlos (34% para 52%) e Tuiuti (20% para 59%). Na Rocinha, em guerra nas últimas semanas, os “gatos” não recuaram nem em períodos de relativa paz, e sempre se mantiveram perto dos atuais 83%, informa a companhia.

Texto: Rafael Galdo

Matéria de O Globo clique aqui

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Site de comunicação comunitária desenvolvido por estudantes de comunicação da própria comunidade da Rocinha.

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