Integrante do FavelaDaRocinha.com fala junto com outros produtores de favela do desafio de retratar problemas e histórias de superação

Na foto da esquerda para a direita: Eduardo Carvalho (Rocinha), Camille  Ramos (Complexo do Alemão), Josinaldo Medeiros (Maré) e May Ximenes (Engenho da Rainha) – (fotos: Domingos Peixoto)

Uma câmera nas mãos (pode ser de celular), uma ideia na cabeça e uma ajuda valiosa das redes sociais transformaram May Ximenes, de 25 anos, Camille Ramos, de 25, Eduardo Carvalho, de 19, e Josinaldo Medeiros, de 28, em respeitados produtores de conteúdo. Os quatro têm algo em comum: fizeram dos locais onde cresceram a inspiração para seus trabalhos. Graças ao grupo, o dia a dia de algumas favelas do Rio ganhou maior visibilidade.

 O GLOBO reuniu os quatro para uma conversa sobre a ideia de mostrar a rotina e os desafios de comunidades cariocas. Um é formado em Cinema, três seguiram o Jornalismo, sendo que dois deles ainda são estudantes. Todos nutriam o desejo de retratar uma comunidade “de dentro para fora”. Uma outra proposta em comum é “deletar” preconceitos, e, para isso, projetos para melhoria da qualidade de vida e iniciativas bem-sucedidas estão sempre em pauta.— Entendo que o local onde moro é uma potência — ressalta May, que vive no Engenho da Rainha e mantém uma página no Facebook chamada “Boca de Favela”. — Sei que muita gente encara as comunidades como lugares a serem evitados por terem uma narrativa em torno da violência, algo que realmente existe. Mas, apesar de todas as dificuldades, os moradores se reinventam todos os dias.

Entre as palavras mais mencionadas pelo grupo está “resistência”. Na maioria das vezes, as horas dedicadas à publicação dos trabalhos não são remuneradas e exigem de tudo um pouco, inclusive coragem. Há conteúdo produzido e divulgado durante confrontos, com o objetivo de ajudar moradores a ficarem em segurança. Há ainda uma permanente cobrança por serviços públicos e espaços para denúncias: não raro, o perfil do Facebook “Maré Vive”, que Josinaldo ajuda a manter, publica fotos e relatos de vítimas de truculência em operações policiais.

— Quando a gente fala da polícia é porque temos de lembrar que ela representa o Estado. Se a PM chega a uma favela para negar a lei, nós, como cidadãos, temos o direito de denunciar eventuais abusos — afirma Josinaldo.

Fazer Jornalismo dentro de comunidades é, para o grupo, questão de representatividade. É criar narrativas onde seus integrantes e outros moradores se sintam reconhecidos.

— Precisamos desse diálogo — diz Camille.

JORNALISMO COM HISTÓRIAS DO ALEMÃO

A infância e a adolescência de Camille Ramos foram passadas no Complexo do Alemão, mas a jovem, hoje com 25 anos, pouco se lembra da vizinhança. A mãe, superprotetora, não deixava que ela circulasse muito pela comunidade. Ela só foi descobrir melhor as histórias escondidas em becos e vielas quando, já como jornalista, formada pela Facha, começou a trabalhar na “Voz da Comunidade”. O portal, que começou como uma cobertura em tempo real da ocupação militar do complexo, em 2010, feita de dentro de casa por René Silva, hoje promove eventos e tem até colunistas de favelas de outros lugares do Brasil:

— Eu me aproximei dessas pessoas e, nesse momento, o mundo mudou para mim. Eu senti a necessidade de representá-las. Isso me engrandeceu muito — diz Camille. — É uma busca que eu vou ter a vida inteira.

Camille deixou o Alemão — agora mora mais perto do Complexo da Penha —e quer continuar trabalhando com jornalismo comunitário. Desde que saiu da “Voz da Comunidade”, em maio, desenvolve um canal no Youtube para contar as boas histórias das favelas, muitas vezes desconhecidas por quem mora no asfalto. Mas o principal objetivo é mostrar para quem vive em comunidade o valor de quem também é “local”:

—Não tem como você criar uma autoestima em uma pessoa se ela não é representada de forma alguma. As pessoas se veem na televisão e se enxergam na mídia, em geral, em um contexto muito ruim. São filmadas durante operações policiais, fugindo de tiros — destaca a jovem.

Para a jornalista, um dos problemas das políticas para as favelas é que elas são feitas por pessoas que não têm vínculos e conhecimentos sobre aqueles territórios.

— Teve gente que conheceu o Alemão em época de eleição e depois nunca mais voltou. E são essas pessoas que estão cuidando da gente — critica.

VIVENDO E INFORMANDO DIRETO DA ROCINHA

Eduardo Carvalho, ou Edu, como prefere ser chamado, tem só 19 anos e ainda não completou o curso de Jornalismo na PUC-Rio, mas já fala com a experiência de um veterano. Com apenas 13, começou a escrever textos para o portal “Faveladarocinha.com”, que publica notícias e artigos sobre a comunidade em que Eduardo mora, vizinha à universidade privada de classe média alta onde estuda. Desde o fim de setembro, a aparente tranquilidade em que a região vivia foi quebrada por uma guerra de facções. Edu acompanhou a reação dos moradores aos conflitos e às ocupações (do Exército e da PM) e relatou o clima de tensão e decepção da comunidade em artigos, um deles para O GLOBO, e programas de rádio. A presença de fuzis para “garantir a segurança” dos moradores é um dos elementos da rotina que mais o incomodam.

— Não posso achar que minha segurança está sendo possibilitada por um militar armado da cabeça aos pés. Isso não pode ser comprado por todos os moradores da cidade e do país como uma coisa normal — diz Edu. — E aí vem o nosso trabalho de reunir todas essas informações e promover um debate para pensar como isso é nocivo. E também estratégias para uma mudança.

Na mesma semana do debate promovido pelo jornal, uma turista espanhola morreu na Rocinha, baleada por um policial. O caso, para Edu, é um exemplo da falta de preparo dos agentes de segurança para lidar com quem nada tem a ver com os conflitos nas favelas. Mas também fez o jovem refletir: enquanto estrangeiros sobem a favela para conhecê-la, quem mora na própria cidade quer se distanciar desses territórios:

— As pessoas acabam não pensando a favela como parte integrante da cidade e como um lugar de potência. Nosso trabalho, como comunicadores, é mostrar sua capacidade de transformação. As pessoas vão criando outros métodos nos territórios pela falta de muitas coisas que o Estado não consegue suprir. E dão conta disso de modo inimaginável.

GARIMPEIRA DE ‘TESOUROS’ DAS COMUNIDADES

May Ximenes, de 25 anos, é a primeira de sua família, que veio de Minas Gerais para tentar a vida no Rio de Janeiro, a entrar em uma universidade. Ela garante que em 2018 volta para o curso na Facha, que trancou para se dedicar a projetos próprios. Entre eles está o “Boca de Favela”, página no Facebook que desenvolveu, com um designer da Rocinha, para narrar o cotidiano das comunidades por um outro ângulo: o de seus personagens. Na página, eles transcrevem relatos em primeira pessoa, com fotos e vídeos.

May passeia por favelas de norte a sul do Rio para entrevistar personagens para o “Boca de Favela”, mas afirma, sem titubear, que o Engenho da Rainha vai ser “sempre seu lugar no mundo”. As histórias encontradas nas comunidades, que revelam talentos e memórias, a motivam a produzir suas reportagens.

— Como eu circulei muito, comecei a perceber que esses espaços eram sempre narrados a partir de uma história única. Toda vez que eu ouvia e via essas histórias, eu não me via, não me ouvia. Não via a minha mãe, não via meu pai. Eu posso tomar sol na laje, mas, além disso, estudo, faço universidade — conta May, fazendo uma referência ao estereótipo que recai sobre as garotas das comunidades.

No debate, May abordou em diversos momentos a banalização da violência. Ela não se refere apenas à convivência com armas pesadas. Conta que sua sobrinha, de 2 anos, volta para casa rindo, divertindo-se por ter ter ficado embaixo da cadeira na escola para se proteger de tiros:

— Isso dá um aperto no coração, porque não é natural. Por isso, é importante contar histórias plurais. Porque quando se coloca a favela como o lugar do perigo, da violência, toda essa dinâmica é legitimada. A polícia não tem estratégia nenhuma quando entra nesses espaços. Chega atirando ao meio-dia, quando as crianças estão saindo da escola. Nosso trabalho só vai fazer sentido quando o poder público começar a debater seriamente a questão da segurança e dos direitos humanos dentro desses espaços.

A REALIDADE NUA E CRUA DA MARÉ

Logo depois do episódio, no ano passado, em que um casal de idosos foi metralhado ao entrar por engano em uma favela em Niterói, a página “Maré Vive” compartilhou uma espécie de “manual” para minimizar os riscos nessas situações. “Entrou em uma favela por engano no RJ? Siga as dicas e mantenha-se vivo” era o título da postagem, compartilhada sete mil vezes no Facebook. O viés de serviços — de informações sobre operações policiais a direitos dos moradores — sempre foi o forte da página que o produtor audiovisual Josinaldo Medeiros, de 28 anos, alimenta, sem ganhar um centavo, com outros moradores do Complexo da Maré, desde que o Exército ocupou a região, em 2014, para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que nunca saiu do papel.

Josinaldo faz críticas à falta de planejamento das operações policiais no complexo. Segundo ele, os caveirões potencializaram a letalidade dessas ações porque a PM agora entra em áreas que, antes da chegada dos blindados, não conseguia. Os conflitos entre facções, por outro lado, são mais previsíveis e restritos a determinadas áreas:

— A guerra na divisa da Nova Holanda com a Baixa do Sapateiro tem 25 anos. Antes, os tiros eram na entrada. Quem estava no miolo já tinha uma noção de onde a bala estava vindo. A gente se organizava e era menos letal. Mas, depois que inventaram o carro blindado (caveirão), a polícia vai a lugares em que antes não chegava. Entram três caveirões, um por cada lado, e aí é bala para todo canto.

Ele crê que a origem do problema de violência nas favelas está fora das comunidades, e dá o exemplo das armas, que, em geral, são importadas. E lamenta que os moradores não conheçam seus direitos:

— Não é interessante que o trabalhador braçal tenha ciência dos seus direitos. Porque a gente, da favela, acaba mantendo a cidade. Se a favela parar, a cidade para. E nós não temos nossos direitos garantidos diante dessa barbárie que a gente vive.

Matéria de O Globo clique aqui

FavelaDaRocinha

Site de comunicação comunitária desenvolvido por estudantes de comunicação da própria comunidade da Rocinha.

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