Histórias de exclusão: no mundo, 136 milhões precisam de ajuda humanitária

Curva do S, Rocinha (foto: Lianne Milton)

O jornal norte-americano“The Washington Post” destacou uma equipe de reportagem de sua sucursal aqui no Brasil para acompanhar o caso de Samantha, mulher de 33 anos, moradora da Rocinha desde que nasceu, mãe de Nicole de Almeida Tavares, adolescente de 16 anos que foi baleada em tiroteio na favela em outubro do ano passado. O resultado das apurações dos repórteres, que esmiúçam a rotina da família e contam detalhes do dia em que Nicole foi ferida, renderam um especial publicado dia 5, que não enche de orgulho os cariocas. A sensação, ainda pior, é que não há equívocos na linha da investigação bem feita pela reportagem.

O trabalho fala sobre a violência na favela, sobre as armas que estão nas mãos dos bandidos – e que alguém lá as botou – , sobre os atos de corrupção do ex-governador Sergio Cabral e demais políticos já atrás das grades, enfim… toda a história que já é, infelizmente, muito conhecida de todos nós, que acompanhamos o noticiário no dia a dia. A equipe de reportagemchegou a entrevistar os médicos do Hospital Miguel Couto que atenderam Nicole, e informa que aqui no Rio já existe uma medicina voltada para a guerra. Há muitos doentes que chegam à emergência com estilhaços de balas de diferentes calibres a granadas. E é disso que os médicos precisam se ocupar, muitas vezes.

Meu olhar foi passeando pelas palavras sem sobressaltos, pois tudo ali já é conhecido. Mas um detalhe da entrevista de Samantha me chamou a atenção e espanou um pouco do cansaço ao ler sobre cenas tão rotineiras. Foi quando ela contou que, mesmo com todo o drama que acabou de viver com a filha e com a possibilidade de a violência ali instalada não se dissipar tão cedo, não gostaria de abandonar o lugar onde vive. Mas Samantha acrescentou  que a filha Nicole, a adolescente que foi vítima, sim, tem sonhos de se ver livre da Rocinha assim que puder.

Já explico porqueo depoimento da jovem me chamou a atenção. Segundo a reportagem, o conflito na Síria, que já dura sete anos, tem menos vítimas do que a guerra nas favelas do Rio. Vejam o trecho que fala a respeito:

“O Brasil sofreu um  recorde de 61 mil mortes violentas em 2016, uma cifra maior do que a perda de vida estimada naquele ano na guerra civil da Síria. Embora os números não sejam diretamente comparáveis – o Brasil tem dez vezes mais pessoas do que a Síria – a carnificina ainda é extraordinária”.

Fiquei a imaginar, justamente neste ponto, se a filha de Samantha seria uma candidata ao infeliz destino de se tornar uma migrante em algum país mundo afora, expulsa daqui pela violência. E busquei dados que pudessem concretizareste cenário imaginado: quantos brasileiros não estariam dispostos a enfrentar perigos para sair do país por se sentirem inseguros aqui, como fazem os migrantes que se arriscam em botes infláveis que enfrentam ondas gigantes?

Não encontrei registros recentes sobre nossos migrantes. O censo do IBGE de 2010 pontuou o deslocamento ao contrário:os pesquisadores descobriram que o país recebeu, naquele ano, 268,5 mil imigrantes internacionais, 86,7% a mais do que em 2000 (143,6 mil). Os principais países de origem dos imigrantes foram os Estados Unidos (51,9 mil) e Japão (41,4 mil).

Já um estudo feito pelo Centro Scalabriano de Estudos Migratórios em 2007, porém, dá conta de que o Brasil, tradicional país de imigrações, se transformou, nas últimas décadas, num país de “expulsão populacional”.

“Em termos gerais, em 2002 o Itamaraty calculava a presença de 1.964.498 brasileiros e brasileiras no exterior. Segundo estimativas de 2007, esse número passou para 3.044.762. Na prática, em cinco anos, ocorreu a saída de mais de um milhão de brasileiros, podendo chegar, a partir de uma estimativa mais elevada, a cerca de 1,8 milhões”, escrevem os autores.

A maior saída é para os Estados Unidos e, em segundo lugar na preferência dos brasileiros, está o Paraguai. Na Europa, preferem o Reino Unido e Portugal. Há saídas irregulares, sim, mas nada que se compare ao sufoco pelo qual têm que passar os migrantes de regiões em guerra declarada, ou aqueles que tentam escapar de ditadores sanguinários. Muito menos se iguale a situação àqueles que fogem de secas, tempestades, eventos extremos causados pelo aquecimento global.

Não há nível de comparação entre os dramas sofridos por esses 136 milhões de pessoas que, segundo reportagem publicada no site do jornal “El País”, precisam de ajuda emergencial e sofrem em conflitos novos e crônicos em todo o mundo. A reportagem, assinada por Claudia Antunes e Gabriela Roméro, conta histórias de quem está sendo atendido por organizações não governamentais, como a Médicos sem Fronteira em acampamentos  improvisados. Uma crise humanitária que parece não ter fim.        

    

“Há crises humanitárias que ganham maior destaque midiático, como a da Síria, e crises ignoradas, como a que aconteceu a partir de meados de 2016 na região de Kasai, uma área até então pacífica no centro da República Democrática do Congo. Choques que começaram com a morte pelos militares de um chefe local levaram 1,6 milhão de pessoas a fugir de suas casas. Centenas delas passaram meses escondidas na floresta, se alimentando com o que podiam encontrar. Quando os confrontos cederam, 80 valas comuns foram encontradas. Equipes de MSF trataram pessoas cujos membros tiveram que ser amputados porque ferimentos e fraturas passaram semanas sem tratamento”, diz um trecho da reportagem.

A filha de Samantha não está, felizmente, entre os 136 milhões que precisam de ajuda urgente. A família deu apoio, a bala que se instalou em seu corpo foi retirada e não deixou sequelas físicas. Mas nada vai apagar a dor que sentiu, o susto que levou ao ser fortemente agredida dentro do território que, em tese, deveria lhe proporcionar a maior segurança.

Não há mesmo como comparar os dramas. Meu convite é só refletir e convidar os leitores a olharem para essas histórias com sensibilidade porque, como lembra o texto da reportagem do “El País”, “jogar luz sobre as crises humanitárias ajuda a pressionar por maiores recursos humanos e financeiros para cumprir o imperativo maior – ainda que muitas vezes negligenciado – de salvar as milhões de vidas em risco”.

Matéria de G1 clique aqui

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Site de comunicação comunitária desenvolvido por estudantes de comunicação da própria comunidade da Rocinha.

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