’Garagem das Letras: a resistência literária que transforma

O espaço literário na Dionéia (foto: Michel Silva)

Ao pensar em uma garagem, adicione a ela muitos livros, jogos, produtos naturais e até pontos de internet. A desconstrução desse local que serviria apenas para abrigar veículos foi remodelada e concretizada há quase três anos, quando em uma iniciativa para transformar a vida dos moradores da Rocinha (sobretudo os jovens) através da literatura, a italiana Bárbara Olivi fundou a ‘’Garagem das Letras’’, sediada na Dionéia, e que hoje é um dos únicos espaços literários na favela que resiste após o fechamento da Biblioteca Parque, o C4.

Em entrevista ao FaveladaRocinha.com, a diretora da instituição conta o que a motivou para a criação do espaço, além de avaliar com tristeza o fechamento da Biblioteca ‘’A Biblioteca precisava de um acolhimento mais caloroso e menos burocrático’’. Bárbara revela ainda seus desejos para o futuro ‘’Meu sonho é alguém chegar aqui, pegar um livro, ler e tirar um cochilo, que significa ‘tô bem, tô em paz aqui’.

 

Como nasceu a ideia para criação da Garagem?

Bárbara Olivi: Acho que fundamentalmente por uma paixão, e a leitura pra mim é um ato de amor. Minha mãe sempre conta que quando eu era pequena, ela me presenteou com o livro ‘’Pinóquio’’ e desde então, nunca mais larguei nenhum. Os livros me fascinam. Na Europa sempre existiram cafés literários e isso sempre me impactava. Eu pensava ‘’Um dia terei um’’. Até que com o PAC 2 houve a derrubada de um espaço onde eu já havia tentado realizar a ideia do café, mas nunca conseguia. Com o reembolso do PAC, partimos à procura de uma casa e nós achamos esta da Dionéia. Pensei ‘’chegou, é essa’’. O que me impressionou não foi a casa e sim a garagem. Eu tinha este sentimento de que seria em uma garagem e que nela iria nascer todo o projeto.

Como é desenvolver um trabalho de resistência literária sem nenhum patrocínio e como avalia o fechamento do C4?

Bárbara: Demorou muito para sair do papel. Tivemos de escrever o projeto e buscar financiadores que comprassem a ideia e a casa. Compramos na verdade em 2011 e só abrimos em 2015, mas desde 2010 o objetivo era esse. Diz o ditado ‘’quem tem fome, tem pressa’’. Não era o caso, porém o sentido que dou era de que a minha fome era e é de sabedoria. Sobre a Biblioteca: seu fechamento é um desastre. Qualquer projeto que acabe é um luto, seja ele pequenino ou até mesmo fantástico, como o caso da Biblioteca. A gestão tinha problemas pela existência da própria estrutura do governo. Precisava de um acolhimento mais caloroso e menos burocrático. Vai continuar sendo um luto se não reabrir efetivamente.

O que esperam para o futuro dos jovens e crianças que utilizam o espaço?

Ainda não realizamos o meu desejo principal: virar uma referência. Queria que a ‘’Garagem’’ fosse um lugar onde os jovens saibam que podem entrar em qualquer momento e que serão bem acolhidos e passarão um tempo conosco em atividade saudáveis. Conversando, fazendo artesanato, fotografia, jogando. E óbvio: lendo. Os jovens entram aqui e é um ambiente sem vícios, um espaço de alegria. Temos aqui um outro olhar sobre a vida, onde todos tem direito a carinho, respeito, ao conforto. Meu sonho é alguém entrar, pegar um livro, ler e até tirar um cochilo. Isso significa ‘’tô bem, tô em paz aqui’’.

Há projetos de expansão da ideia ou mesmo do ambiente?

Meu objetivo é melhorar o local. E no momento onde precisarmos de mais espaço, vamos querer fazer parcerias. Sempre desenvolvemos ideias com outras iniciativas, porque se estamos na Rocinha e queremos que ela seja beneficiada, não me importa se iremos fazer isso nas minhas dependências ou em outras. Temos que nos juntar como coletivo para que o benefício chegue.

Eduardo Carvalho

Morador da Rocinha há 16 anos, um jovem que tenta absorver todas as coisas dessa favela-mundo tão viva e movimentada para transmitir em reportagens e crônicas. Já fez parte da formação do Rotary Club Rio e participou em 2013 do Onda Cidadã, do Itaú Cultural.

Eduardo Carvalho

Eduardo Carvalho

Morador da Rocinha há 16 anos, um jovem que tenta absorver todas as coisas dessa favela-mundo tão viva e movimentada para transmitir em reportagens e crônicas. Já fez parte da formação do Rotary Club Rio e participou em 2013 do Onda Cidadã, do Itaú Cultural.

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