Ex-moradores da Rocinha tentam ganhar a vida fora do país

Legenda foto arquivo pessoal: Da esquerda para a direita, Suene Oliveira, Vinicius “Maka” Castro com sua esposa, Vanda Nascimento, Leandro Lima e Michele Castro.

Austrália, Itália, Estados Unidos e Espanha são esses os destinos de cinco ex-moradores da Rocinha que ganharam o mundo e tentam viver longe da favela. Eles contaram para o FavelaDaRocinha.com as vantagens e desvantagens de morar em outro país.

A decisão de morar fora pode ser estimulada pelo surgimento de um novo trabalho, vontade de construir uma família, encontrar um lugar melhor para viver, pela procura de uma nova experiência, pelo crescimento pessoal ou profissional ou simplesmente a vontade de sair do país. Uma coisa é certa, quem morou por muito tempo ou é cria da favela tem boas lembranças da cultura e das pessoas da Rocinha.

A jornalista Suene Oliveira, 28 anos, está morando há sete meses em Roma, na Itália e acha que viver em um país da Europa, é dizer sim para crescer como pessoa. Na capital italiana, ela tem tido contato com a rica história do país e considera que o novo lugar que reside lhe proporciona uma rica experiência de aprendizado.

“Gostaria que na nossa comunidade todos tivessem acesso à cultura com mais facilidade e que os moradores da Rocinha sentissem orgulho do que foi construído aí, como vejo o orgulho dos italianos por cada pedaço de pedra que eles têm”, afirma Suene.

O administrador do Rocinha Guest House, um dos primeiros hostels da comunidade, Vinícius Castro, mais conhecido como Maka, 34, é nascido e criado na Rocinha e está morando em Melbourne, Austrália, há seis anos. Ele aponta inúmeras diferenças da vida na sua cidade para a Rocinha. “Não tem favela; a classe média é mais numerosa que a classe mais pobre; todas as casas têm uma horta urbana; o lixo é separado e coletado semanalmente”. Em compensação, ele lembra que onde mora atualmente o comércio fecha mais cedo e não é permitido comer, beber, jogar vôlei e futebol na praia.

“Quando penso na Rocinha, imagino as pessoas que me viram crescer e que fizeram parte de minha vida. Fico feliz ao saber que amigos da minha geração estão realizando projetos na comunidade e ajudando uns aos outros.  Corta o meu coração vê-los reféns dessa guerra sem fim”, comenta Maka.

Michele Castro, 34, musicista que também é cria da Rocinha, está morando no Colorado, Estados Unidos, desde 2015 e vive numa cidade que no ponto de vista dela tem um aspecto funcional. O custo de vida é menor e é possível adquirir artigos eletrônicos a baixo custo. O maior impacto que ela percebeu quando se mudou foi a longa distância entre as residências e o comércio local, além da presença de poucas pessoas circulando nas ruas.

“Quando tenho notícia ruim da Rocinha, meu sentimento é de tristeza. Principalmente quando é noticiado por uma mídia especuladora em que não há preocupação em abordar o problema na raiz. Como se a Rocinha tivesse na sua maioria traficantes e usuários de drogas. E todos nós sabemos que não é assim, me deixa revoltada quando não temos a nossa representação na mídia de forma honesta e verdadeira”, explica Michele.

Desde 17 de setembro, a Rocinha vive momentos difíceis devido ao confronto armado para obter o controle de pontos de venda de drogas. Muitas pessoas têm procurado outro lugar para morar e já houve vítimas fatais decorrente de tiroteios que acontecem repentinamente.

Michele também recebe boas notícias sobre a Rocinha e isso é gratificante para a musicista. “Fico feliz em saber que os meus amigos estão fazendo coisas maravilhosas, ou quando um projeto dá bons frutos. Tenho satisfação enorme ao falar da minha vida na Rocinha e apontar para quase 100% dos meus amigos como um exemplo do que há de bom na Rocinha”, afirma Michele.

O jogador de basquete, Leandro Lima, 33, que vive em Palma de Mallorca, na Espanha, há seis anos com a esposa que conheceu no Rio de Janeiro, gostaria que tivesse mais igualdade entre as pessoas daqui. “Seria muito bom se todos pudessem trabalhar e ter as mesmas condições econômicas, tendo um trabalho simples”, comenta Leandro. A decisão de morar na península Ibérica foi tomada em conjunto com sua mulher que já vivia no país.

Vanda Nascimento, 47, que mora há dez anos na pequena ilha italiana, Lampedusa, 6,3 mil habitantes, que faz parte do arquipélago das Ilhas Pelágias, tem uma vida pacata, muito diferente da agitação da Rocinha, que tem cerca de 70 mil habitantes, segundo o IBGE. Ela afirma que o lugar que mora também tem problemas, crises e violência, mas a diferença é que muitos podem viver com dignidade e sustentar a família mesmo com um salário modesto, diferentemente do que acontece no Rio de Janeiro.

“Eu sinto saudade das pessoas amigas, da variedade de comidas nas ruas, tudo muito gostoso e barato”, explica Vanda. Já Maka fez uma lista detalhada do que sente saudades na Rocinha.

“Sinto saudade de acordar de manhã, ir de chinelo e bermuda comprar pão. Dar bom dia a família, aos vizinhos, motoristas de ônibus, moto e vans. Encontrar aquela pessoa que não vejo há dias e trocar risadas. Falar besteiras com os amigos nos nossos lugares específicos, pois cada grupo tem um beco que gosta de parar para trocar ideias. Sinto falta do casual, do biscoito Globo, do mate em Ipanema, da comida das baianas, o Maki-sushi, do restaurante Trapiá, dejogar vídeo game e ouvir Rock ‘n’ Roll com amigos”, recorda Maka.

Flávio Carvalho

Fotógrafo desde 2009, músico e jornalista formado pela PUC-Rio. Mora na Rocinha desde que nasceu.

Flávio Carvalho

Flávio Carvalho

Fotógrafo desde 2009, músico e jornalista formado pela PUC-Rio. Mora na Rocinha desde que nasceu.

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