E aí morador, a pacificação melhorou ou piorou a Rocinha?

10Eu já ouvi esta pergunta de diversos amigos do “asfalto” e até mesmo de estrangeiros, afinal, a Rocinha melhorou ou piorou após a pacificação? Em primeiro lugar, um artigo é pouco para esgotar esse tema em todos os aspectos, mas farei um esboço a partir do “olhar de morador”.

Para começo de conversa, o emprego do vocábulo Pacificação é infeliz e sugere uma realidade que não se confirmou. Os tiroteios estão mais constantes, houve aumento de crimes como estupro e roubo de domicílio e a sensação de insegurança , por incrível que pareça, é maior após a entrada da Unidade de Polícia Pacificadora, UPP. Se antes eu tinha medo de ser alvo de algum marginal, hoje também temo “sumir” nas mãos de policiais.

Confesso que fiquei otimista com a possível chegada efetiva do Estado e fui mais um iludido com as promessas de mais e melhores serviços públicos que, infelizmente, não se confirmaram.  O principal erro do governo é a falta de diálogo com o morador, a imposição da política pública vertical (de cima para baixo). Em vez de nos tratarem como sujeitos integrantes do processo, adequando as ações públicas às nossas reais necessidades, nos tratam como acéfalos. Eles trouxeram a polícia, mas esqueceram de todo o resto e ainda querem nos impor um teleférico goela abaixo, mesmo após a afirmarmos que a prioridade é o saneamento básico. A UPP social, que deveria fazer a integração do governo com a comunidade, é uma falácia e assim como inúmeras obras do PAC 1 ainda não saiu da teoria.

Mas a pergunta pode ter diferentes respostas de acordo com a localidade do morador. A transformação do antigo Beco do Rato na Rua Nova melhorou muito a condição dos que lá vivem. O Complexo esportivo e a Biblioteca Parque também trouxeram um pouco de dignidade. Em contrapartida, aqueles que moram na Macega ou na Roupa Suja continuam em situação precária, alguns vivem em casebres de madeira e papelão e sem qualquer perspectiva de melhora. E se está ruim para os outros, imagina para o morador da Rua 2 onde há tiroteios quase diários.

Se a política de repressão e enfrentamento não se modificar, se o governo não utilizar a inteligência, a UPP está fadada ao fracasso. A integração favela-asfalto não acontecerá enquanto houver discriminação social, e a ponte que une esta cidade partida passa necessariamente pelos direitos civis, pela igualdade de oportunidades.

Não se pode trazer paz com fuzis, não se pode aumentar a qualidade de vida se não houver investimento na educação e profissionalização das pessoas. O governo nos prometeu uma tonelada de serviços públicos, mas até agora só entregou alguns poucos gramas.

Marcos Barros

Cria da Rocinha, jornalista, coordenador de comunicação e professor voluntário do Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha. Atuante no FavelaDaRocinha.com desde 2010.

Marcos Barros

Marcos Barros

Cria da Rocinha, jornalista, coordenador de comunicação e professor voluntário do Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha. Atuante no FavelaDaRocinha.com desde 2010.

Você pode gostar...

3 Resultados

  1. Devaldo Mendes de Oliveira disse:

    Tá pior!!!!!

  2. O dia que a policia toma vergonha na cara a upp vai dar serto!

  3. Luiz Flavio Simões disse:

    o tráfico depende de policiais e policiais depende do traficante…e quem se fode é os moradores.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *