Biblioteca Parque da Rocinha permanece fechada e vê mais uma promessa sendo descumprida

Moradores protestam em frente a Biblioteca Parque da Rocinha contra o fechamento do espaço (foto: Flávio Carvalho)

O prefeito Marcelo Crivella, em visita à Rocinha no dia 04/10, disse em uma entrevista, que estaria liberando R$ 1,5 milhão, com recursos do Município, para a reabertura da biblioteca, e segundo o prefeito, em 20 dias a Biblioteca Parque da Rocinha (C4) estaria de portas abertas.

O secretario estadual de Cultura, André Lazaroni, também informou na época, que as equipes de limpeza e segurança já estavam contratadas e que ainda em outubro sairia o resultado da licitação para a contratação dos demais funcionários. “A reabertura dessa biblioteca só está sendo possível porque estamos com uma grande parceria com a prefeitura”, disse na época para a agência de comunicação EBC.

Em dezembro de 2016, o C4 situado no meio do morro, fecha as portas para o público e os funcionários são dispensados de seus cargos. Em um ano, o C4 deixa de atender milhares de visitantes e os livros que eram emprestados agora ganham a poeira do abandono. “Chegamos a atender 7 mil usuários por mês. Apenas 10% deste público era leitor, mas havia um plano de trabalho para que a médio prazo este número aumentasse. Formação em leitura é um trabalho que demanda tempo e persistência. A maior parte do público era de crianças e jovens” disse Daniele Ramalho, diretora do C4 no período de janeiro de 2012 a novembro de 2014.

Fernando Ermiro é morador da Rocinha e um dos ex-funcionários que integrou a equipe da biblioteca desde a inauguração. “O espaço por sua existência estimulava escritores locais, todos desengavetaram seus projetos e assumiram a ideia de escrever e publicar. O que a Rocinha perdeu, foi mais do que um espaço de fruição, comunicação e encontro, perdeu fomentos a diversos autores que estavam narrando suas vidas e suas ficções, e agora estes projetos estão de volta à gaveta, além das crianças leitoras que se poderiam se tornar autoras, mas tenho esperança que mesmo assim elas se tornem”, afirma Fernando.

Daniele lembra dos tempos como diretora e das atividades que já aconteceram na biblioteca. “Numa mesma semana recebíamos atividades como uma palestra do escritor Leonardo Boff para a corporação da UPP, uma formação para agentes de saúde ministrado pela equipe de Maria Helena, do Centro Municipal de Saúde Dr. Alberto Sabin, programávamos contação de histórias com nosso mediadores para alunos das escolas da Rocinha, palestras de filosofia com professores da Casa do Saber, encontros do Rocinha Sem Fronteiras, exposições realizadas em parceria com Instituto Moreira Salles e Museu Sankofa Memória e História da Rocinha, oficinas de grafite com Wark. Atendíamos todas as idades e perfis de pessoas, moradores de diversos sub-bairros, mesmos os mais distantes da Cachopa, onde a biblioteca está localizada” disse a ex-diretora.

Moradores também sofreram com o impacto da perda do C4 da Rocinha. Debora Corrêa, de 19 anos, era uma visitante assídua do espaço e também participava de muitas atividades que o C4 oferecia. “Eu conheci o lugar através de amigos que frequentavam. Nós marcávamos um horário para irmos todos juntos. Eu via filmes, apresentações de teatro, usava os computadores e fazia pesquisas, pegava livros, fazia yoga… a biblioteca estimulava muito a leitura. Minha irmã e eu não estamos lendo hoje em dia o que líamos na época que visitávamos o C4”, lamenta Debora.

“A população precisa se engajar mais uma vez, da mesma forma que se engajou para este espaço existir, pedindo a sua reabertura. A Rocinha tem atores sociais bastante maduros que já estão batalhando por esta questão. Mas esta causa deve ser de todos os moradores e também da cidade.” diz Daniele.

A biblioteca permanece fechada. Até a conclusão desta edição não obtivemos nenhum posicionamento da prefeitura sobre a atual situação do C4.

Leandro Lima

Estudante de jornalismo, amante da fotografia e tecnologia. Morador da Rocinha e criador do portal FavelaDaRocinha.com. Já atuou no Parceiro do RJ (TV Globo), correspondente comunitário da BBC e Al-Jazeera. É fotógrafo de agências internacionais de notícias.

Leandro Lima

Leandro Lima

Estudante de jornalismo, amante da fotografia e tecnologia. Morador da Rocinha e criador do portal FavelaDaRocinha.com. Já atuou no Parceiro do RJ (TV Globo), correspondente comunitário da BBC e Al-Jazeera. É fotógrafo de agências internacionais de notícias.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *