Após 1 ano ocupado pelo Estado, a Rocinha reclama os mesmos problemas de antes da entrada da UPP

Um ano de UPP na Rocinha e moradores ainda esperam por melhoriasHá 1 ano a Rocinha vivia uma data histórica ao longo desses mais de 70 anos de abandono do poder público. A comunidade que foi regulamentada oficialmente em 1993, já abrigava nordestinos e cariocas de baixa renda desde a década de 40. Somente em 13 de novembro 2011, a favela foi tomada, pela primeira vez, para ser administrada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, numa ocupação policial que prometia um espetáculo midiático, e que para a segurança dos moradores não aconteceu.

– No dia sai com minha câmera fotográfica, com a TV Tagarela e o Arley foi com a câmera de filmar. Teve uma reunião na Tagarela e decidimos que íamos fazer, só não tínhamos decidido o que faríamos com o material, possivelmente montar um documentário, afirma Robson Melo, integrante da TV Tagarela, uma TV comunitária da Rocinha.

– Fiquei em casa muito preocupada com medo do que poderia acontecer. Temia confronto e derramamento do sangue, diz Simone Rodrigues, moradora e organizadora do Rocinha Sem Fronteiras.

– Eu estava em casa com minha família, mulher e filhos. Ficamos na expectativa de que algo ruim ia acontecer. Compramos chocolate, fizemos uma oração para que não se repetisse o que havia acontecido na guerra de 2003, diz André Martins, funcionário do C4/Biblioteca Parque da Rocinha e integrante do grupo de teatro Roçacaçacultura.

Ao longo desse período de 1 ano muita coisa aconteceu. Algumas com teor de violência como, o assalto a loja da Ricardo Eletro, a morte do presidente da Amabb, Feijão, as denuncias de roubos às casas, morte de policiais e moradores. Outras com cunho positivo, como a inauguração da Fábrica Verde e do C4/Biblioteca Parque da Rocinha, inserção de oficiais da CET-Rio para mediar o trânsito caótico da Estrada da Gávea, redução do número de armas nas mãos de civis, enfim a entrada do poder público com mais facilidade.

No entanto, no que se refere a avanço nos problemas fundamentais da população “rocinhense”, como diria Tio Lino (promotor de cultura da Rocinha), nada foi feito. O valão continua no mesmo lugar de sempre, o número de funcionários da Comlurb coletando lixo continua muito abaixo das necessidades da favela, tendo como base número de residências da Rocinha, ainda há falta de água nas casas e as crianças continuam pisando na merda e sentindo o cheiro fétido dos valões a céu aberto. No que se refere ao saneamento básico, avanço zero.

Confira alguns depoimentos de moradores sobre essa passagem de 1 ano de ocupação:

Robson Melo – TV Tagarela

“Passado um ano, a ocupação não vem para suprir uma carência e fazer uma diferença de fato na vida das pessoas, era uma ação que tinha que acontecer para o Estado. Os serviços públicos e a segurança a gente não tem. Sensação de segurança e segurança de fato são conceitos diferentes. Em nenhum lugar do Rio de Janeiro não tem, não seria diferente na favela. Eu esperei, e queria que eu estivesse errado, era que os serviços público entrariam, mas não aconteceu. Eu queria ter visto a tropa de elite da educação, do lazer e da cultura entrando, da saúde principalmente também. Saneamento básico na Rocinha não tem”.

Confira a matéria que Robson fez no dia da ocupação:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_a_ocupacao_da_rocinha

Maxwell Alexandre – SBR Rocinha Radical

“A única mudança que senti foi ficar sem internet, pois o serviço da minha casa era ilegal. Percebi que a comunidade ficou mais tranquila, vejo isso pela Via Ápia”.

Joilson Pinheiro – Pequenos Poetas da Rocinha

“Não mudou nada. A favela continua com as crianças nos becos pisando em cocô de gato e cachorro. Em relação à cultura piorou muito as coisas, não fomos ouvidos, mas querem que a gente ouça. Parece uma colonização da favela da Rocinha. Agem como se fossemos um bando de selvagens. O C4 tem dado certo movimento na cultura, mas nem todos comparecem aos eventos. Nestes tem mais gente de fora que morador. O C4 tem hora para fechar, mas e a noite da favela? Por que as pessoas deixaram de curtir o morro? O silêncio noturno significa cautela e a Rocinha era frenética”.

Fabiana Leonel – Acorda Capoeira

“Por enquanto não vi nenhuma mudança, pelo contrário, vejo minha comunidade com medo até de falar. Você como cidadão de bem não pode mais andar na rua que logo os policiais abordam e te fala na cara: “você tem cara de ladrão, cara de maconheiro” e fica por isso mesmo”.

André Martins – Cia de Teatro Roçacaçacultura

“A UPP trouxe alguns dos braços do governo para a favela. Alguns investimentos e empresas. O poderio armado apenas mudou de roupa. Hoje ele veste farda. O tráfico continua até com mais força. Roubos e estupros são comuns. Não digo que melhorou nem piorou, mas estamos ainda longe de viver uma realidade parecida com a de nossos vizinhos: São Conrado e Gávea”.

Simone Rodrigues – Rocinha Sem Fronteiras

“Tinha a expectativa que depois da ocupação viriam medidas para o desenvolvimento da Rocinha, como educação, saúde e saneamento etc. As expectativas foram frustradas. E na verdade a polícia trouxe outros problemas. Começaram a ocorrer furtos e pequenos delitos dentro da favela, que não acontecia antes da entrada da UPP. A polícia não se contém de forma devida e ainda se comporta como bandido. A polícia se esquece que faz parte do povo, desrespeita o morador e pratica crimes de corrupção, furtos, lesão corporal, abuso sexual, dentre outras atrocidades”.

Leandro Santos – Agente Ambiental

“Mudanças aconteceram boas e ruins, depende do ponto de vista.  Por exemplo, os moto-taxistas agora são pessoas adequadas e habilitadas para nos conduzir. Mas a liberdade de virar um beco depois de anoitecer não é a mesma. O medo de ser confundido com um traficante faz parte do cotidiano dos moradores, esperamos que um dia isto mude”.

Marcos Braz – ex-Parceiro RJ

“Não vejo mais o problema de falta de luz acontecer, é um exemplo. Outro é que a Rocinha também recebeu muitos projetos sociais que abrem muitas oportunidades aos moradores. Ainda falta muita coisa a ser feita, mas vejo que estamos no caminho certo”.

Guilherme Velasco – Agente Comunitário

“Em termos subjetivos e psicológicos, eu tenho uma sensação de insegurança ao perambular no interior da Rocinha. Não vejo mais pessoas consumindo, nem comprando drogas ao ar livre, mesmo sabendo que a venda continua. Dá para se ter um panorama real da violência na Rocinha o que antes era velado. E o trânsito ficou menos caótico”.

Leonardo Melo – tatuador

“Depois de 1 ano de ocupação vejo que os serviços obrigatórios do estado e de direito da população não são respeitados devidamente. Nas ruas ainda tem lixeiras a céu aberto. Quando tem coleta (coisa que acontece várias vezes ao dia) para todo o trânsito. Nas ruas ainda tem carros estacionados indevidamente em toda extensão da Estrada da Gávea e o valão ainda está descoberto”.

Eduardo Martins – estudante de jornalismo da PUC-Rio

“Em 1 ano aconteceu muita coisa. Algumas não aconteceriam, caso ainda existisse a lei do tráfico (acertos de contas por motivos esdrúxulos e brigas constantes em bares), atitudes que as pessoas não tinham porque se sentiam intimidadas. Mas de uns 3 ou 4 meses para cá, essas mesmas atitudes foram reduzindo por conta da presença da polícia”.

Flávio Carvalho

Fotógrafo desde 2009, músico e jornalista formado pela PUC-Rio. Mora na Rocinha desde que nasceu.

Flávio Carvalho

Flávio Carvalho

Fotógrafo desde 2009, músico e jornalista formado pela PUC-Rio. Mora na Rocinha desde que nasceu.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *